Ser ou não ser mãe? Eis a questão.

Recentemente rolou um post no grupo do Papo sobre relatos de gente que se arrependeu de ter tido filhos. Como psicóloga obstétrica e perinatal, esse é um assunto que muito me interessa! Vejo muitas mães cheias de crenças em uma maternidade super romantizada que as oprimem e as enchem de culpa. E não é preciso se arrepender de ter tido filhos pra se sentir cheia de dúvidas, incertezas e sofrimentos. Então, algo que estudo muito é justamente  o caminho social, político e histórico que nos fez chegar até aqui. A Carla achou que valia a pena transformar meu comentário em post, e aqui estou eu!

foto: Ashley Byrd

Mas vamos começar do começo, e de forma bem resumida.

Lá no século 16/17, a realidade que a gente tinha era: casamento não tinha vínculo afetivo – eram acordos financeiros! A mulher não tinha valor social, era vista apenas como moeda de troca. O índice de mortalidade – sobretudo infantil – era super alto e não existia métodos contraceptivos.

Isso levava a situação de famílias numerosas, grande quantidade de filhos e uma maternidade sem vínculo, sem afeto pois não foi fruto de uma relação de amor. Os filhos poderiam morrer a qualquer momento ou não “vingar”, e era inviável ser afetiva com 10/11/12 crianças/adolescentes. O infanticídio era uma prática comum e as crianças eram cuidadas por amas de leite e em comunidade. Não existia vida “privada” (podem reparar em filmes e novelas de época: casas sem muros, sem portões, portas sempre abertas, sem trincos).

Aí pulamos para a entrada do capitalismo!

Entra nesse jogo a divisão de público e privado e, com isso, os vínculos familiares começam a se dar de uma forma diferente e o vínculo afetivo passa a ter valor. E aí eu começo a investir emocionalmente e financeiramente naquela criança. Os casamentos começam a acontecer por amor.

Porém,  se eu invisto eu espero algo em troca. Espero que a criança me ame de volta e que corresponda ao investimento que fiz nela: ela precisa cumprir as minhas expectativas! O estado joga para as famílias a responsabilidade da criança vingar e se tornar um cidadão útil. E é nessa época que também começa a divisão: homem é provedor, mulher cuida da família.

No século 19 a sociedade passa a ver valor na criança e na mãe! Ser mãe passou a ser um status social (daí vem a ideia de que mulher tem filho pra segurar marido).

Junto com o capitalismo, temos a Primeira Guerra Mundial. Os países perdem, sobretudo homens em idade reprodutiva e que seriam forças de trabalho. Precisam de mais gente. E nessa época, ser mãe e ter a tarefa de povoar as cidades passa a ser uma questão patriótica. É um dever da mulher à pátria. (Pesado, né?)

E aí começam os movimentos feministas!

Começam os questionamentos: e se eu não quiser? Podemos notar duas vertentes fortes: uma que acreditava que ser mãe era uma função de valor e que por isso deveria ser uma função remunerada. E outra que dizia que ser mãe te privava de outras possibilidades e te deixava refém do homem.

Só a partir dos séculos 19 e 20 que a maternidade começa a ser questionada. Vale lembrar que em termos de história, isso é muito recente.

Foi só a partir de 1960 (ou seja, praticamente 60 anos atrás) que a mulher se fortificou no mercado de trabalho! Quando a mulher entra no mercado de trabalho é que a gente começa a se questionar: e como faço pra dar conta do resto?

Acontece que toda essa trajetória (beeeeem bem resumida aqui) trouxe pra gente a ideia de amor incondicional e instinto materno. Mas se pararmos pra pensar, é algo que lá no século 17 não existia! Então da onde isso vem? Faz parte de uma construção social e política.

Muitas de nós caímos no conto do vigário: “ser mãe é a melhor coisa que vai acontecer na sua vida!” “Você precisa saber o que é amar um filho.” “Sua vida nunca mais vai ser a mesma depois disso (em um sentido positivo).”. “É um amor que chega a doer.” Essas e todas as outras frases que a gente já ouviu pelo menos uma vez na vida..

E pode até ser que para muitas mulheres seja mesmo tudo isso!! Mas o importante é a gente saber que não vai ser assim pra todas..

Quando a gente entende o processo, quando a gente olha pra trás, quando a gente desconstrói esses conceitos, tudo isso ajuda no processo de uma maternagem consciente!

Eu escolho ser mãe porque isso faz sentido pra mim e não na busca de que o filho vai preencher o que me falta. Ou que o filho vai justificar as minhas escolhas, o meu corpo, a minha carreira, o meu relacionamento! Eu escolho ter filhos sabendo que eu vou ser a mãe que for possível. Sem a ideia utópica de que era isso que faltava na minha vida pra eu ser feliz, pra me sentir completa..
Falei isso tudo e tenho a consciência que foi um resumo do resumo. Mas eu bato MUITO na tecla que não tem como falar em maternidade real ou em maternidade compulsória sem olhar pra trás e entender de onde vem tudo isso.
Quando a gente faz esse movimento, isso nos mostra também a ideia de que a escolha de ser ou não mãe é um ato político! Maternidade é política. A romantização é política. E o buraco é muuuito mais em baixo do que decidir baseado apenas no amor incondicional, no instinto materno e no relógio biológico.

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